Nem a estatística acompanha a agropecuária

•Vem aí mais uma safra recorde de grãos no Brasil. O Sétimo Levantamento da Safra 2020/21 da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) prevê uma colheita de 273,8 milhões de toneladas de grãos. Um crescimento de 6,5% ou de 16,8 milhões de toneladas em um ano!

Confira a previsão da CONAB no link https://www.conab.gov.br/info-agro/safras/graos/boletim-da-safra-de-graos.

•O mercado está em alta e pagando muito bem, pois a Argentina deve entregar entre 5 e 10 milhões de toneladas de grãos a menos, devido à seca, e os Estados Unidos também tiveram uma redução da ordem de um milhão de hectares na área plantada com soja e outro milhão nas lavouras de milho.

•A previsão da CONAB tem como base a safra de verão já colhida, os plantios consolidados das culturas de segunda safra e a semeadura das culturas de inverno. Apesar das dificuldades com o clima, em várias regiões do Brasil houve aumento na produção agrícola. E esse avanço, em 2020, resultou dos ganhos constantes em produtividade e de um aumento de 3,9% na área cultivada.

•Segundo a CONAB, 68,5 milhões de hectares foram cultivados com grãos. É isso. E não é isso. Na realidade, os 273 milhões de toneladas virão de uma área de 48,5 milhões de hectares cultivados na safra de verão, dos quais cerca de 30% ou 20 milhões de hectares foram retomados. Quer dizer: não houve aumento de área agrícola com base em desmatamentos, mas o cultivo dos mesmos campos, mais de uma vez, no mesmo ano agrícola. Em alguns casos, o mesmo campo rendeu até 3 safras, graças ao plantio das chamadas safrinhas e de culturas de inverno, dependendo da região do Brasil.

•Assim, devido à prática de fazer mais de um cultivo na mesma área e no mesmo ano, em certos municípios brasileiros, a soma das áreas totais cultivadas pode ultrapassar a superfície total dos municípios. E não é um erro, embora já tenha sido até apontado por incautos como falha nas estatísticas. Se, graças aos avanços tecnológicos, um mesmo campo é cultivado duas e até três vezes no mesmo ano, uma nova variável estatística é necessária para acompanhar e explicar esses dados: um índice ou indicador de intensificação.

•Esse número, em geral, varia de 1 a 4. Por exemplo, 2 significa duas colheitas na mesma área por ano; 1,5 significa uma colheita em toda área e mais outra em metade da área, e assim por diante. Ao lado de qualquer estatística sobre área cultivada, o indicador de intensidade traz uma informação relevante. Por exemplo, no caso da área total cultivada com grãos no Brasil seriam 48,5 milhões de hectares com uma intensidade de 1,3. Quer dizer: 48,5 milhões de hectares cultivados, sendo 30% com uma colheita extra.

•Isso é fundamental até para entender os ganhos excepcionais de produtividade total por hectare cultivado e pastejado em curso no Brasil. E para evitar eventuais boatos infundados sobre o aumento de área total plantada em detrimento de florestas...

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