Calendário e medida do tempo

Diante de um tempo em fuga constante, os homens buscaram marcos de referência na regularidade dos fenômenos naturais do cosmos para construir seus calendários: fases da lua, movimento solar, estações. Hoje é impossível viver sem calendário, sem esse estruturador das agendas. Um calendário dá a impressão de domínio sobre algo do qual ninguém escapa: o tempo. O que é um calendário?
Em latim, cal (endário) significa proclamar ou convocar (como em inglês call). No primeiro dia de cada mês, chamado em Roma calendes, os sacerdotes proclamavam solenemente se as nonas - horas de oferendas - caíam no quinto ou no sétimo dia (nove dias antes dos idos). O livro das calendas, o calendarium, era usado para contar os dias das festividades religiosas, marcadas no início de cada mês lunar na Roma Antiga.
Calendário, em latim, também significa livro de contas ou de vencimentos. Vencimento no sentido de compromisso ou pagamento devido. Quem procura um calendário, e nele constrói sua agenda, busca organizar seus compromissos, conhecer seus “vencimentos” e dividir melhor seu tempo.
A primeira divisão de qualquer calendário é a dos anos. Um ciclo completo da Terra em torno do Sol. Os anos (annus) significam etimologicamente colheita, produção do ano, em latim. Anona era a deusa do ano e presidia as colheitas no mundo romano. Ela era personificação da produção agrícola anual. Representada muitas vezes ao lado da deusa Ceres (a dos cereais) com uma cornucópia (chifre da fertilidade) repleta de produção agrícola no braço e a proa de um barco ao fundo, indicando o transporte de grãos para suprir a cidade de Roma pelo mar. No Brasil, e no hemisfério Sul, o solstício de verão marca do tempo das colheitas, da safra e da grande produção agropecuária. A agricultura segue os ciclos cósmicos e deles tira proveito. Para o agro, é um tempo de abundância e riqueza.
O solstício de verão ilumina não apenas a Terra, o hemisfério Sul, o espaço em suas três dimensões. Ele ilumina o tempo, a quarta dimensão do criado. Para muitos, a ordem inteligível, sempre presente no escoar do tempo, é a do movimento perpétuo, a da inexorável passagem (chronos). O solstício e o Natal também anunciam a proximidade de um ano novo e a possibilidade, sempre renovada, de um novo Tempo, de mudanças e salvação. Agora, já, no presente consciente (kairós).

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