Falta mel e sobram apicultores

Comemora-se em 17 de março o Dia Nacional do Mel. Junto ao leite, o mel está associado à abundância, à fartura: terra de leite e mel. O Brasil é um gigante mundial na produção de açúcar e um anão, dos bem pequenos, na produção de mel. E do jeito que a coisa vai, já falta e ainda pode faltar mais do precioso mel no mercado interno. Falta produção. E falta produção porque falta o uso de tecnologias modernas e um manejo profissional das colmeias.
Em 2020, a produção nacional de mel foi da ordem de 52.000 toneladas (aumento de 60% com relação a 2004). É pouco, muito pouco. O Brasil é o 11º. produtor mundial. Poderia e deveria estar entre os três maiores. O maior estado produtor é o Paraná. O Sul representa 38% da produção nacional e o Nordeste 37%. Quase empatadas, somam 75% da produção nacional.
Os preços subiram, chegando a mais de U$ 5/kg. Com a valorização do dólar, exportar mel é bom negócio. Em 2020, o Brasil exportou cerca de 46.000 toneladas: 75% aos EUA e 12% à Alemanha. O mel brasileiro é de qualidade e puríssimo. A exportação para a Alemanha, um país extremamente rigoroso nas análises sobre a qualidade do mel importado, o comprova.
Quem cuida das abelhas, das colmeias e do produto são os apicultores. E, de certa forma, a muitos falta o que sobra nas abelhas: profissionalização. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE (2017) havia no Brasil mais de 100.000 apicultores, explorando um total de quase 2,2 milhões de caixas de abelhas. Uma média de 21 caixas ou colmeias por apicultor. Apesar da existência de grandes apicultores, profissionalizados e tecnificados, a grande maioria são pequenos produtores, com poucas caixas. Para eles, a apicultura é uma atividade marginal. Representa oportunidade de uma renda adicional, com pouco investimento de tempo, trabalho e capital.
O reflexo desse baixo investimento na gestão dos apiários está na produção média anual por colmeia no Brasil, da ordem de 20 kg. As condições tropicais e a biodiversidade da flora e da vegetação brasileira podem garantir a produção de pelo menos 35 a 40 kg/ano. Esse valor deveria ser a meta de um mínimo para a apicultura nacional.
No ritmo atual, uma campanha incentivando o consumo de mel seria um risco. Estimular o consumo de mel na merenda escolar e na cesta básica, mesmo com apenas 4 gramas de mel por dia, por exemplo, geraria uma demanda adicional de 10.000 toneladas. E a produção não tem como atender tal demanda hoje. A agropecuária brasileira precisa de mais e melhores apicultores. O extrativismo em colmeias não tem sustentabilidade. A solução para melhorar a qualidade dos produtos com mel em seus ingredientes e aumentar o consumo do mel in natura no Brasil dependem do aumento da produção. E este, dos ganhos em produtividade através de inovações tecnológicas e manejo profissionalizado. Não há outra alternativa. E ela não é nada amarga. O Brasil ainda não é o país da fartura, nem a terra de leite e mel. Por enquanto, é só a do leite.

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