Só as mudanças no agro são certeza, em 2020


- Com o aumento das exportações para a China, a oferta de carne bovina no Brasil diminuiu e os preços subiram. A alta acumulada em 2019 foi de 32,4%. Um caminhão de carne processada passou a valer cerca de um milhão de reais e virou uma atração para bandidos especializados em roubo de carga.

- A violência contra transportadoras de carnes e frigoríficos é inédita e levou os caminhões a saírem acompanhados de escolta armada pelas estradas, de acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Segurança Privada (Contrasp). Em grandes centros urbanos é possível observar caminhões de carne escoltados também ao entregar mercadorias em supermercados e açougues. É mais um custo adicional para o consumidor pagar, embutido no preço já bem alto da carne.

- Para a Contrasp, os roubos a caminhões de carne superaram o número de assaltos a carro-forte no país. E carne não é como cargas de cigarros ou eletrodomésticos, passíveis de serem armazenados, escondidos em qualquer local. Carnes exigem refrigeração e se deterioram rapidamente, se armazenadas em locais inadequados. Cabem, portanto, duas perguntas: quem apoia a ação dos criminosos com logística de armazenagem, escoamento e venda dos produtos roubados? E que ameaças à saúde pública decorrem do armazenamento e distribuição inadequados da carne roubada?

- Na China, para enfrentar a crise da PSA, o governo colocou US$ 7 bilhões à disposição dos grandes produtores de suínos, para aumentar a produção via inclusão de pequenos produtores, por meio de aquisição ou leasing de parte ou do total das pequenas produções. Teoricamente é um movimento de modernização da criação de suínos com a atuação de “empresas âncora” no qual os mais tecnificados cuidarão dos menos, na região onde estiverem. Nesse contexto é possível que as compras de milho pela China voltem a aumentar, após o declínio dos últimos anos.

- No Brasil, as transformações tecnológicas, a expansão da integração lavoura-pecuária, o crescimento de cadeias produtivas, como a do algodão, das carnes e do milho, face à estagnação relativa e à dificuldade de alguns setores agropecuários (como laranja, café e até açúcar) mudaram o peso e a contribuição das agriculturas estaduais no PIB agropecuário.

- Em 2019, o estado do Mato Grosso representou 16,1% das receitas totais do agro do Brasil, assumindo a liderança nacional pelo segundo ano consecutivo. Ultrapassou São Paulo (12,4%) em valor bruto da produção agropecuária. O Valor Bruto da Produção (VBP) chegou a 102 bilhões de reais em 2019, no Mato Grosso, contra 78 bilhões em São Paulo. E nada indica que São Paulo retomará a tradicional liderança nacional, no curto prazo.

- No setor de agroenergia, os investimentos em unidades industriais de grande porte para a produção do etanol de milho, no Mato Grosso, ampliarão ainda mais o valor da produção agropecuária do Estado. Seguindo o conceito da Economia Circular, a geração de etanol a partir do milho gera um subproduto interessantíssimo para rações na alimentação de rebanhos: o DDG (sigla em inglês de Distillers Dried Grains ou Grãos Secos de Destiladores). Trata-se de um concentrado proteico, extraído dos grãos secos de milho durante o processo de destilação, na produção de etanol. Quando este subproduto não passa por processo de secagem, chama-se WDG (Wet Distillers Grains ou Grãos Úmidos de Destiladores) e é fornecido preferencialmente para gado leiteiro.

- Os DDG ainda são comercializados, nos Estados Unidos, com 8 a 12% de solúveis. São então chamados de DDGS (Distillers Dried Grains with Solubles ou Grãso Secoes de Destiladores com Solúveis). São granulados estáveis, de cor marrom, considerados uma excelente fonte de energia, vitaminas, sais minerais e, principalmente, proteínas adequadas para ruminantes, a um custo mais baixo do que as racões à base de torta de soja. Saiba mais sobre suas propriedades, uso e armazenagem no link do Conselho Tecnológico de Grãos de Destiladores (DGTC, em inglês) https://distillersgrains.org/distillers-grains/.

- No Mato Grosso, o DDG já é uma alternativa economicamente viável para a alimentação animal, embora a produção de etanol de milho tenha apenas começado. A procura pelo DDG aumentou rapidamente, em 2019, por parte de criadores de gado de corte em confinamento e de leite.

- Esse subproduto ou coproduto, corretamente precificado, ajudará o Brasil a transformar mais fibras e proteínas vegetais em proteína animal, agregará valor, gerará novas atividades e empregos. Muitas usinas de etanol de cana de cana de açúcar estão interessadas em se tornar flex para incluir o milho no processo, podendo então operar durante todo o ano (e não só nos dois a três meses da safra de cana) e ainda obter tais subprodutos.

- De transformação em transformação avança a agropecuária brasileira, cada vez mais integrada. O Nordeste ultrapassou o Sudeste na produção de grãos nos últimos anos, graças à expansão da soja e do milho no Oeste da Bahia e no Sul do Piauí e do Maranhão, na região do chamado Matopiba. Isso não ocorria desde o século XIX. O Nordeste também contribui com as exportações recordes de algodão, de 2,5 bilhões de dólares, 57% maiores do que em 2018.

- O mundo rural é complexo e dinâmico. Nenhum especialista previu o conflito comercial entre China e EUA, nem as consequências da peste suína africana na Ásia, na agropecuária mundial ou sua influência sobre a criminalidade brasileira. Ninguém antecipou as produções recordes de milho e algodão. Previsões sobre o futuro da agricultura, no Brasil e no mundo, são sempre arriscadas. Sabemos apenas que haverá mudanças, mas quais, com qual intensidade e com que consequências, não dá para arriscar palpites. Na verdade, como dizia o grande dramaturgo Nelson Rodrigues, plagiado por tantos nestes dizeres: - No Brasil, até o passado é imprevisível.

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