Brasil virou potência agrícola ao excluir a aração


-           O Brasil passou da condição de importador de alimentos, nos anos 1960/70, para a autossuficiência. E não parou até se tornar um grande exportador de alimentos, garantido a segurança alimentar a mais de um bilhão de pessoas. Isso foi possível graças ao empreendedorismo dos agricultores, com capacidade de inovar, de se profissionalizar. E, também, graças ao desenvolvimento de tecnologias tropicais, com a contribuição da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), das universidades e da indústria privada. E uma dessas tecnologias, aprimoradas no Brasil, merece destaque especial: o plantio direto na palha.

-           Trata-se de um sistema de plantio sem aração, que apenas abre um sulco na terra, sobre a palhada da colheita anterior, onde são depositadas as sementes da nova cultura. A sucessão de culturas geralmente alterna leguminosas (soja, feijão) e gramíneas (milho, capim).

-           A versão brasileira do sistema de plantio direto na palha começou a ser ensaiada no Paraná, em 1972, com grande dificuldade, pois não havia máquinas adequadas. Inicialmente o objetivo era conter a erosão e as primeiras máquinas adaptadas foram feitas por agricultores da região de Campos Gerais, como Hans Bartz de Rolândia (PR).

-           A transformação de uma técnica alternativa em tecnologia tropical de primeira linha se deu com o início da produção de duas a três safras por ano no mesmo campo e a adoção dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Hoje, muitas espécies usadas no sistema de plantio direto são forrageiras. Além de fornecer palha e raízes, garantem a produção de carne e leite e agregam valor à produção, quando associadas a sistemas de ILPF (Leia mais no link http://www.agricultura.gov.br/assuntos/sustentabilidade/plano-abc/integracao-lavoura-pecuaria-e-floresta-ilpf).

-           Atualmente, o Brasil cultiva a maior parte dos cereais, leguminosas, oleaginosas e algodão sem arar a terra. São mais de 35 milhões de hectares no sistema de plantio direto. Saiba mais lendo o artigo do pesquisador Afonso Peche Filho, do Instituto Agronômico de Campinas (http://www.infobibos.com/Artigos/2007_2/Mecanizacao/index.htm) ou no site da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (https://febrapdp.org.br/).

-           Essa tecnologia tropical age sem movimentar o solo; sem revolver a terra e sem expor seus horizontes inferiores aos impactos negativos do sol e da chuva. Procede-se à adubação, à semeadura e, eventualmente, à aplicação de herbicidas em uma única operação agrícola, graças a equipamentos específicos. Há também redução da compactação e do adensamento dos solos pela diminuição do número de passagens das máquinas no campo.

-           Os quase 50 anos de experiência com o sistema de plantio direto na palha, no Brasil, atestam ganhos em produtividade de até 30% na comparação com o sistema convencional e de até 50%, em época de estiagem, pelo fato de a cobertura de palha preservar no solo a umidade necessária às culturas e graças ao melhor enraizamento (Veja detalhes no link https://www.researchgate.net/publication/331174691_Edicao_139_Formacao_de_um_perfil_de_enraizamento_profundo_e_a_estabilidade_da_produtividade_de_culturas_de_graos_sob_Sistema_Plantio_Direto).

-           Sistemas análogos, utilizados na gestão de cultivos perenes ou plurianuais, também buscam ampliar a produção e a disponibilização de palhas e resíduos no campo. Tais restos vegetais são capazes de preservar a matéria orgânica nos solos e reduzir os impactos negativos das máquinas.

-           A dimensão territorial do Brasil, a diversidade de solos e climas, e a variedade da condição econômica dos produtores rurais levaram ao desenvolvimento de diversos sistemas de plantio direto na palha. Conheça alguns deles na publicação online disponível na Embrapa https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/98258/1/500perguntassistemaplantiodireto.pdf.

-           O sistema de plantio direto também intervém na rotação interanual de culturas e no consórcio de cultivos. O consórcio maximiza o uso da terra com cultivos simultâneos, de duas ou mais espécies com diferentes características. O plantio do milho de segunda safra com o capim braquiária ou a crotalária (adubo verde) são exemplos. Tornam possível a produção de grãos e, ao mesmo tempo, de palha e raízes, além da sucessão do cereal por pastagem. O sistema pode beneficiar até a produção intercalada de hortaliças.

-           Em poucas palavras, o país passou a tirar uma segunda e até terceira safra anual dos mesmos campos, evitando desmatamentos, abertura de novas áreas e ainda agregando mais matéria orgânica ao solo, com a consequente fixação de carbono, além da redução drástica da erosão.

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