A sacralidade do semear une os povos mais diversos


-           À exceção dos caçadores-coletores, cuja alimentação independe de plantios, todos os povos valorizam sementes e mudas a ponto de criar mitologias e atos religiosos envolvendo o ato de semear. Quem planta sabe o valor sagrado das sementes, capazes de se manter vivas de um ano para outro, prontas para dar origem a novas plantas tão logo sejam colocadas em condições ideais, no solo úmido.

-           Algumas sementes, inclusive, sobrevivem por décadas, séculos ou mesmo milhares de anos, em estado latente, respirando lentamente, e ainda são capazes de germinar. Um exemplo conhecido são as sementes de tâmaras de dois mil anos, encontradas no sítio arqueológico da fortaleza de Masada, perto do Mar Morto. Depois de passarem alguns anos numa gaveta, elas foram plantadas, gerando a tamareira-macho apelidada de Methuselah (Matusalém), hoje adulta e fértil. Leia mais na reportagem da National Geographic (em inglês) no link https://www.nationalgeographic.com/news/2015/03/150324-ancient-methuselah-date-palm-sprout-science/.

-           Para diversos povos, o ato de semear é reservado às mulheres, por sua associação com a fertilidade. Os homens até podem arar a terra, preparar os sulcos e posteriormente cuidar da plantação, mas a semeadura é coisa de mulheres.

-           Entre os hauçás, etnia africana do Sahel (sul do Saara), existem celeiros de grãos e um outro especial para as sementes, chamado de “celeiro-surdo”. Este é destinado a guardar tanto as sementes para o próximo plantio como os grãos para sustentar quem vai trabalhar no campo. É chamado de surdo porque não pode ser aberto de jeito nenhum para atender os pedidos das mulheres ou o choro das crianças, caso os celeiros comuns de grãos se esgotem e falte comida durante o ano.

-           Entre os cristãos, não existe texto mais primoroso sobre as sementes e o ato de semear do que o sermão escrito pelo Padre Antônio Vieira, em 1655, e por ele pregado em latim, na Capela Real, de Lisboa, para toda a nobreza. É o Sermão da Sexagésima Semen est verbum Dei. S. Lucas, VIII, 11. Reproduzimos abaixo a primeira parte. A íntegra pode ser lida no link http://culturatura.com.br/obras/Serm%C3%A3o%20da%20Sexag%C3%A9sima.pdf.

-              E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe. Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que «saiu o pregador evangélico a semear» a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus. Não só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto. Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hãolhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare.

-              Vale destacar, no sermão, a diferença que Pe. Vieira faz entre título (semeador) e função (o que semea), além do puxão de orelhas em muita gente querendo colher o que não plantou. Ele ainda destaca as sementes capazes de germinar entre pedras, espinhos, no meio de caminhos. E questiona: se a palavra de Deus é tão eficaz, por que tão pouco fruto?

-           Ao final, o pregador relembra “estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, soberbas, ódios, ambições, invejas, cobiças... Veja o Céu que ainda tem na Terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na Terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus. E saiba a mesma Terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: et fecit fructum centuplum.

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