O legado agropecuário da Carta do Achamento do Brasil

Em 22 de abril de 1500 – há 520 anos – os portugueses aportavam em terras brasileiras pela primeira vez. A bordo vinha um cavaleiro do Ducado de Guimarães (posteriormente renomeado Bragança) e antigo vereador da cidade do Porto, chamado Pero Vaz de Caminha. Aos 50 anos (idade avançada para a expectativa de vida de então), o cavaleiro fora designado como secretário do entreposto comercial a ser estabelecido em Calicute, na Índia, destino final da esquadra de Pedro Álvares Cabral.

Tão logo as caravelas ancoraram, Caminha foi incumbido por Cabral de escrever a carta oficial do Descobrimento. Durante pouco mais de uma semana, ele fez um relatório longo e minucioso de tudo o que pode ouvir e apreender da língua tupiniquim. A substancial carta de Caminha, finalizada em 1 de maio de 1500, seguiu para Portugal num navio de suprimentos, juntamente com outras cartas.

Passados 520 anos, muitos trechos da carta de Caminha ainda merecem ser lidos e relidos, dada a riqueza de detalhes e acurácia das observações. Algumas de suas colocações já influenciaram as expedições seguintes à de Cabral, quanto aos animais domésticos e às plantas de cultivo, trazidos pelos primeiros povoadores. Ou seja, influenciaram o nascimento de nossa agropecuária.

Infelizmente, algumas menções errôneas a trechos da carta também circulam até hoje. Como a expressão “nesta terra em se plantando tudo dá”, que Caminha nunca escreveu. Esse mote foi usado até em propaganda de adubo, difundindo a ideia errada de que, no Brasil, basta lançar sementes no chão e esperar para colher frutos. O mito da terra fértil vem da leitura equivocada do elogio de Caminha aos bons ares e à abundância das águas (e não do solo). Em português atual, a carta diz: “Mas a terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados como os dentre Doiro e Minho, porque neste tempo de agora os achamos como os de lá. Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem”

Uma versão da Carta de Caminha, em português modernizado, pode ser lida online no link. O fac-símile da carta e sua digitação em português arcaico estão disponíveis no link. O trecho das águas, aqui citado, está no verso da página 13.

Com a facilidade da internet, quem sabe os insistentes difamadores tenham finalmente acesso ao texto de fato escrito por Pero Vaz de Caminha. Ele não condenou a agropecuária brasileira ao mito da fertilidade fácil, como muitas figuras ilustres – de técnicos a ex-ministros de agricultura – querem crer e fazer crer. Quem assim afirma só demonstra que, na realidade, nunca leu a carta.

Pero Vaz de Caminha morreu quase oito meses depois de escrever o documento histórico, considerado a Certidão de Nascimento do Brasil. Foi assassinado por muçulmanos num ataque em Calicute, em 15 de dezembro de 1500. Nunca retornou a Portugal.

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